Para que um programa de compliance seja efetivo, é fundamental que ele leve em consideração como as pessoas realmente pensam e tomam decisões no dia a dia — não apenas como elas “deveriam” agir segundo normas formais. É nesse ponto que entram os conceitos de heurísticas e viéses cognitivos.
Mas o que são heurísticas e viéses cognitivos e como impactam a efetividade de um programa de compliance?
Heurísticas são atalhos mentais usados pelo cérebro para tomar decisões rápidas e práticas, especialmente diante de incertezas, pressões de tempo ou excesso de informação.
Um rápido exemplo: a área de suprimentos julga que um determinado fornecedor da empresa é confiável apenas porque já o conhece há muito tempo e não faz due diligence antes de contratá-lo novamente.
De outro lado, viéses cognitivos são erros sistemáticos de julgamento que derivam do uso de heurísticas. Eles distorcem nossa percepção da realidade e afetam decisões de forma inconsciente.
Um rápido exemplo: achar que um comportamento antiético é aceitável porque outras pessoas também o fazem.
Por que essas noções importam para compliance?
É comum os programas de compliance estarem centrados em regras, controles e treinamentos formais, partindo do pressuposto de que, se as pessoas conhecem as regras, elas irão segui-las. No entanto, a neurociência e a economia comportamental mostram que o comportamento humano nem sempre funciona assim, porque mesmo pessoas bem-intencionadas, treinadas e capacitadas podem tomar decisões erradas por diversos fatores: pressões, hábitos, atalhos mentais ou cultura organizacional permissiva.
Assim, enquanto muitas empresas ainda tratam compliance como algo puramente normativo e documental, por exemplo, criando códigos de conduta, políticas internas e promovendo treinamentos obrigatórios, pode ser que a efetividade real de um programa de compliance esteja em sua capacidade de influenciar o comportamento humano no dia a dia corporativo.
Como o compliance pode ser mais efetivo com base nesse entendimento?
1. Simplificar a tomada de decisões éticas
Quanto mais difícil for fazer a coisa certa, menor a adesão. O cérebro evita esforço cognitivo.
2. Lembretes e “nudge points” no momento certo
Regras ensinadas em treinamentos são facilmente esquecidas no momento da decisão real, caso não sejam reforçadas no dia a dia.
3. Projetar ambientes éticos, não apenas políticas
A cultura real da empresa (o que é tolerado, recompensado ou ignorado) impacta mais que qualquer código de conduta.
4. Reforçar o comportamento certo com exemplos positivos
Focar só em punições gera medo, paralisia ou resistência.
Um programa de compliance que ignora como as pessoas pensam e se comportam terá políticas impecáveis, mas com pouca efetividade real.
Ao considerar heurísticas e viéses, o compliance evolui de uma função normativo-punitiva para uma função estratégica de gestão de comportamento e cultura organizacional.